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29/04/2011

Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men)

(obs: não sei o que você pode achar, mas particularmente eu penso que esta crítica é SPOILER... Depende da sua impressão do filme, por via das dúvidas acho melhor você vê-lo primeiro)



Pouco mais de um ano atrás eu assistia a este filme pela primeira vez: e minhas impressões a respeito dele eram bem diferentes das que tenho agora. Lembro-me que quando terminei, lembrei-me do documentário de Michael Moore Tiros em Columbine e simplesmente pensava que a ficção dos irmãos Coen era na verdade um filme surrealista, agarrada ao fato do cherife Ed Tom Bell relatar um estranho sonho no final da projeção e depois concluir: "E aí acordei". Mas quando resolvi ler críticas a respeito do filme, encontrei vários comentários que não compartilhavam nada da minha interpretação - pelo contrário, todos apontavam para a natureza cruel da espécie humana, num coral uníssono... E nem mesmo isso me fez voltar atrás com a minha opinião. Ao menos, naquela época.

Mas a nossa espécie é realmente traiçoeira, a ponto de nós mesmos nos "pegarmos" fazendo coisas que não achávamos ser capazes sequer de pensar. E todos nós fazemos essas coisas, mesmo não querendo admitir.

Segundo Michael Moore, assassinos em massa como o atirador de Columbine - e consequentemente o do Rio de Janeiro - não passam de excessões à regra em nossa sociedade, que juntando experiências de vida complicadas a algum tipo doença mental acabam por arquitetar e executar atitudes absurdamente cruéis. Analisando por essa ótica, a hipótese do "surrealismo" presente em No Country For Old Men é perfeitamente encaixável, não fosse ironicamente pelo próprio título que o filme carrega.

Fechando - por enquanto - o parênteses a respeito dos ideais que o filme carrega, vamos nos ater à obra em si e dizer que ela é fantástica. Com o ritmo - considerado por alguns como "lento", por mim como "suspensioso" e imprevisível - dos irmãos Coen, a trama se desenvolve sem pressa e cheia de suspenses, paradas silenciosas e momentos agoniantes, tudo isso no ambiente vazio dos desertos do Arizona, que contribuem para o isolamento contínuo de alguns de seus personagens. Falando nisso, o ator espanhol Javier Bardem encarna a figura absurdamente perfeita do assassino Anton Chigurh, com seu jeito contido, centrado... E ameaçador. A monstruosidade de sua atuação faz de Chigurh um personagem que sempre está em evidência até mesmo fora de cena - e por melhor que fosse o roteiro, sem sua interpretação, todo esse cuidado seria jogado ralo abaixo.

Não há como negar a beleza da fotografia, a acertividade da trilha sonora, a criação perfeita desse universo caótico que irremediavelmente lembra os velhos tempos do Oeste norte-americano - épocas selvagens e violentas também, onde a violência era algo rotineiro, o que nos leva novamente ao assunto tratado no início desta crítica...

Cormac McCarthy queria falar da natureza cruel e assassina do ser humano, isso é um fato inegável. Mas concordar ou não com ele já é outra história, depende muito de quem estiver assistindo e do que cada um de nós acredita. Ao mesmo tempo que lembro da ideologia de Michael Moore, por outro lado penso em tempos remotos da nossa História, quando atirar prisioneiros num coliseu cheio de leões famintos era considerado uma diversão extremamente popular no Império Romano. Depois disso, penso na comédia Duplex, e no fato de que o casal interpretado por Ben Stiller e Drew Barrymore não faz mais do que traduzir o que qualquer um sente e quer fazer com um vizinho insuportável.

Então venho à minha pergunta: será que somos realmente "bonzinhos" ou a nossa suposta boa-conduta não é nada mais do que o medo que temos de sofrer as consequências de nossos atos? Isso não faz com que a única diferença entre nós e esses assassinos em massa seja a nossa... "Fraqueza"?


17/03/2011

Estômago

=(ATENÇÃO: postagem com conteúdo altamente spoiler - ao menos ao meu ver - se você ainda não assistiu ao filme... Não perca tempo, é ótimo!! Assista e delicie-se antes de descobrir os grandes segredos dessa belíssima produção do nosso país =)


Uma excelente direção de fotografia, um roteiro espetacular, uma atuação exemplar: “Estômago” é um filme que fala de hierarquias, poder, sexo, culinária... E trás uma – perdão pelo trocadilho – deliciosa revelação ao final. A trilha sonora é também um dos pontos fortes do filme, contribuindo para a “relação de amor” que se cria entre Raimundo Nonato e os pratos que prepara, relação esta que é simplesmente a essência do filme: a comida com a qual ele seduz, a comida que ele usa como arma, a culinária à qual ele serve e se entrega.

Independente do quanto se defenda o personagem pela sua origem humilde – sendo que nem sequer sabemos o porquê dele aparecer perdido em "Curitiba" (há uma micro-cena em São Paulo), como se a viagem tivesse sido arranjada de última hora – e pelo carisma que sua aparente ignorância provoca, o fato é que é justamente tudo isso que torna Raimundo Nonato uma perfeita caracterização de psicopata (e ao contrário do que se pensa a princípio, essa doença é muito mais comum na sociedade do que se pode imaginar). Um psicopata não é necessariamente um assassino frio e serial killer que mata sem pensar quem estiver por perto. É comprovado pela ciência que existem vários níveis de psicopatia, começando pelo simples sujeito que puxa o tapete dos colegas pra se promover dentro da empresa.

Um psicopata costuma ser uma pessoa inteligente, carismática e persuasiva, que vai conquistando aos poucos a confiança de quem estiver em seu redor, mas que por trás de sua simpatia não mede esforços pra conseguir o que quer e não possui empatia com as outras pessoas, considerando sua satisfação sempre o mais importante.

É o que Nonato faz, através de seu jeito ingênuo e acuado de caipira nordestino, mas que com alguns goles de bebida alcoólica se revela o monstro assassino que é – e isso é muito bem enfatizado até no roteiro, fotografia, montagem e direção de cena do filme, no primeiro momento de fúria, em que Nonato vê sua amada prostituta se despindo e acariciando os clientes da balada onde trabalha e, já alterado, tenta partir pra cima. O que o impede realmente de poder “sair matando todo mundo” é sua estrutura física, mas que não serve de empecilho para um homem que tem inteligência de sobra a usar – e é esse seu maior trunfo, o dom de aprender rápido e ter talento, que o torna um excelente cozinheiro e o faz crescer na hierarquia, tanto dentro como fora da cadeia.

E é essa inteligentíssima surpresa que faz do roteiro de “Estômago” uma das melhores e mais detalhadas retratações de um psicopata na História do Cinema.