29/04/2011

Scott Pillgrim Contra o Mundo - Edgar Wright

Scott Pilgrim é um exemplo de inovação estética e de linguagem. É uma linguagem extremamente direcionada ao público adolescente, que está acostumado com informações rápidas, jogos eletrônicos,etc. O diretor optou por manter a mesma lógica dos quadrinhos que foi adaptado, com tela dividida, efeitos sonoros representados por texto (punch, crash, boom, ding dong), e usou bastante o estilo de videogames, na verdade o filme inteiro é um jogo, desde o roteiro até a estética.
Essa estética é justificada pelo roteiro: Scott tem que derrotar os 7 ex namorados da menina que ele gosta para conseguir ficar com ela. Ou seja, o filme nos insere em uma história de game e usa diversos artifícios para mostrar isso. Em alguns momentos chegamos a nos perguntar se estamos vendo um filme ou jogando videogame. Até letreiro das fases (níveis do jogo) o filme tem.A montagem do filme é uma das melhores que eu já vi, muito inteligente e dinâmica. No início parece um pouco complicado, mas logo você começa e entender tudo. Com elipses muito bem pensadas, a fala de uma cena engata na fala de outra cena, isso não é nenhuma novidade, Shrek Terceiro fez isso também, mas a forma como está em Scott Pilgrim é genial.
Com uma trilha sonora baseada no rock e em jogos de videogame, o som também acompanha muito bem a estética do filme. Usam diversas vezes durante o filme, efeitos sonoros conhecidos dos games, como por exemplo, o som de vida, de inicio de round, etc.
E depois de usar tantos elementos do videogame, o filme não podia deixar de terminar sem o clássico “Continue? 10, 9, 8, 7....”
Nota 9 pro filme, nota 1000 pra edição.

Rio - Carlos Saldanha



Mais uma vez o grande diretor Carlos Saldanha nos prestigia com uma nova animação, mas dessa vez, com uma temática bastante brasileira. Foi uma grande sacada do diretor mostrar mais o Brasil para o mundo, mas ele ainda usa o estereótipo de que Brasil é só “futebol, carnaval e bunda”.
O que impressiona em Rio é a qualidade técnica da animação. A forma como Rio de Janeiro foi reproduzida na animação está incrível. É um filme com cenários muito bonitos: grandes planos gerais, cenas de vôo quete fazem viajar pela cidade, é uma sensação incrível.

Saldanha foi bastante inteligente em utilizar ícones brasileiros. Uma das cenas acontece durante o desfile de carnaval na Sapucaí; tem uma cena de vôo que eles circundam o Cristo Redentor e o Corcovado. Com isso ele dá mais noção de localização para os espectadores do mundo todo. Se fossem mostrados locais pouco conhecidos internacionalmente, com certeza teria gente pelo mundo perguntando: “Mas isso é o Rio de Janeiro? Isso é Brasil?” e o filme poderia ficar pouco realista lá fora.
O roteiro é muito bom, mas não tem nada de mais. Conta a história de duas araras azuis, a fêmea mora no Brasil e o macho nos Estados Unidos. Um pesquisador quer cruzar os dois, mas ao chegar no Brasil eles acabam sendo capturados por traficantes de animais e a história começa a girar em torno da tentativa de sobrevivência deles.
O complicado é que Blue (a arara macho) é de cativeiro e não sabe voar, então ele precisa aprender o quanto antes. É um roteiro bastante envolvente e engraçado, vai te arrancar umas boas risadas.

Senna - Asif Kapadia



Ayrton Senna é, sem dúvida, um dos maiores ídolos que o Brasil já teve, tem admiração até da geração de fãs do automobilismo que nem chegaram a ver ele correndo (eu sou um exemplo disso), e esse documentário veio, merecidamente, mostrar a vida do herói, com todos os altos e baixos. O documentário conta com bastante material de TV e videos pessoais da família Senna.

Um dos focos principais do documentário é a rivalidade existente entre Alain Prost (que é um dos entrevistados) e Ayrton Senna, e por serem companheiros de equipe, essa rivalidade se torna ainda maior, porque um quer se mostrar melhor q o outro. A montagem é bastante irônica com as afirmações de Prost, após uma fala dele sempre vem uma imagem ou uma outra fala que deixa em dúvida a credibilidade das informações dadas por Prost.


Dois pontos negativos para o filme: um pela trilha sonora, e outro pelo desenho de som. A trilha sonora é típica de qualquer video que fale sobre automobilismo, musiquinha padrão.
E o desenho de som não é nada além das falas, trilha sonora chata, e som original dos vídeos de acervo. Isso torna o filme sonoramente cansativo. Senna é um filme emocionante, poderia ter aproveitado melhor o potencial que o som tem nesse quesito.

A morte de Senna é tratado quase que em segundo plano. Somente os momentos finais do filme são dedicados ao fato. O filme faz questão de mostrar a tensão de Senna no final de semana de sua morte. Com o acidente de Rubens Barichello na sexta e a morte de Ratzenberger no sábado, e ainda a suspeita de que Schumacer estava equipado com sistemas proibidos no carro, Senna estava visivelmente abalado.

A cena final tem uma montagem bastante pesada dramaticamente, eles mostram algumas pessoas especificas no velório intercalando com imagens dessas pessoas em momentos felizes com Senna.

Senna é um dos poucos documentários que eu aguentei ver até o final (mesmo sendo longo).

300 - Zack Snyder


UAAAAAU!!! É impossivel falar de 300 sem falar da pós produção que teve esse filme. A adaptação tem o mesmo visual “aquarelado” dos quadrinhos de Frank Miller. Snyder fez o mesmo com as adaptações do The Spirit e Sin City, transferiu para a tela os quadrinhos originais. Chegamos quase a achar que estamos vendo uma animação. Grande parte das cenas é gravada em chroma-key com cenário digital. O filme é uma aula de edição: tem provavelmente as melhores cenas de batalha do cinema, fruto do incrível trabalho de edição, com câmeras intercalando entre slow motion e fast motion. Os atores também ajudam bastante, dando uma riqueza de detalhes nos movimentos incrível.
O roteiro é um épico digno de Hollywood: 300 homens nascidos para a guerra (espartanos) enfrentam milhares de soldados inimigos (persas) e se mantêm na resistência por muito tempo, apenas perdem a batalha pela traição de um cidadão espartano.

A trilha sonora também foi incrivelmente composta por Tyler Bates. É um rock, mas não nos distancia daquela época, ele tem uma pegada épica, o que nos deixa aindamais próximos da bravura espartana.
Muitos filmes nos conquistam apenas por imagem, ou por roteiro, ou, as vezes, pela trilha sonora, mas 300 é um filme que consegue nos conquistar (e muito) em todos os aspectos. Aplaudiria de pé a toda a equipe do filme.

Karatê Kid (The Karate Kid) 1984-2010

Karatê Kid foi um grande sucesso dos anos 80 que mostrava a vida de “Daniel San” (Ralph Macchio), que teve que se mudar de Nova Jersey para o sul da Califórnia onde não se adaptou muito bem e teve problemas com alguns rapazes da nova cidade depois de ter conhecido uma garota que era ex-namorada de seus novos inimigos. Os rapazes começam a atormentar Daniel San, que procurou ajuda com o “Senhor Miyagi” (Pat Morita), um senhor mestre na arte do karatê, que o ensina essa arte para que ele possa se defender.
O filme fez tanto sucesso que em 2010 o diretor Harald Zwart decidiu repaginar o longa fazendo uma nova versão que se passa, ao invés dos EUA, na China.Desta vez o protagonista é “Dre Parker” (Jaden Smith), um menino de uns 8 anos, que se muda dos EUA para a China, onde encontra muita dificuldade até em assistir TV e acha estranho ver o “Bob Esponja” em outra língua. O desenrolar da história é basicamente a mesma. Ele conhece uma menina que fala o seu idioma e quando começa a se aproximar dela acaba arranjando encrenca com “Cheng”, um garoto que luta kung fu e que começa a perseguir Dre, que também como na trama de 1984, conhece um senhor que vai lhe ensinar a lutar kung fu,o “Senhor Han” que é interpretado por Jackie chan, ensinando também a ser disciplinado com outras coisas.
Apesar da incoerência de ter mudado completamente a arte marcial, de karatê para kung fu, o filme não perdeu a graça, aliás, tem momentos que é bem legal ver o modo como ele aprende a ser disciplinado. É um filme que vale a pena ser visto..

THE TOXIC AVENGER (1985)

Produção de baixo orçamento, deve ser um filme aclamado por umas 10 pessoas ao redor do mundo.

Na trama, um garoto feio e desajeitado é constantemente atormentado pelos garotos populares e pelas bonitas garotas do colégio. Certo dia uma brincadeira acaba mal, e ele cai dentro de um barril de lixo tóxico. Ele retorna deformado, porém maior e mais forte, e decide combater o crime. Arranja namorada, vira herói, mas logo ele começa a perder o controle de seus poderes.


Considerado um trash (não sei bem o porquê), o filme abusa de clichês, não se preocupa muito com realidade e coerência na história, mas trata de temas sempre presentes na sociedade, como Bullying e preconceito. Acaba por ser mais um tesouro que os preciosos anos 80 nos deixou.

[The Toxic Avenger, filme de ação/comédia de 1985, dirigido por Lloyd Kaufman e Michael Herz, se tornou o mais famosos filme da produtora Troma Entertainment, conceituados por filmes classe B.]

Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country For Old Men)

(obs: não sei o que você pode achar, mas particularmente eu penso que esta crítica é SPOILER... Depende da sua impressão do filme, por via das dúvidas acho melhor você vê-lo primeiro)



Pouco mais de um ano atrás eu assistia a este filme pela primeira vez: e minhas impressões a respeito dele eram bem diferentes das que tenho agora. Lembro-me que quando terminei, lembrei-me do documentário de Michael Moore Tiros em Columbine e simplesmente pensava que a ficção dos irmãos Coen era na verdade um filme surrealista, agarrada ao fato do cherife Ed Tom Bell relatar um estranho sonho no final da projeção e depois concluir: "E aí acordei". Mas quando resolvi ler críticas a respeito do filme, encontrei vários comentários que não compartilhavam nada da minha interpretação - pelo contrário, todos apontavam para a natureza cruel da espécie humana, num coral uníssono... E nem mesmo isso me fez voltar atrás com a minha opinião. Ao menos, naquela época.

Mas a nossa espécie é realmente traiçoeira, a ponto de nós mesmos nos "pegarmos" fazendo coisas que não achávamos ser capazes sequer de pensar. E todos nós fazemos essas coisas, mesmo não querendo admitir.

Segundo Michael Moore, assassinos em massa como o atirador de Columbine - e consequentemente o do Rio de Janeiro - não passam de excessões à regra em nossa sociedade, que juntando experiências de vida complicadas a algum tipo doença mental acabam por arquitetar e executar atitudes absurdamente cruéis. Analisando por essa ótica, a hipótese do "surrealismo" presente em No Country For Old Men é perfeitamente encaixável, não fosse ironicamente pelo próprio título que o filme carrega.

Fechando - por enquanto - o parênteses a respeito dos ideais que o filme carrega, vamos nos ater à obra em si e dizer que ela é fantástica. Com o ritmo - considerado por alguns como "lento", por mim como "suspensioso" e imprevisível - dos irmãos Coen, a trama se desenvolve sem pressa e cheia de suspenses, paradas silenciosas e momentos agoniantes, tudo isso no ambiente vazio dos desertos do Arizona, que contribuem para o isolamento contínuo de alguns de seus personagens. Falando nisso, o ator espanhol Javier Bardem encarna a figura absurdamente perfeita do assassino Anton Chigurh, com seu jeito contido, centrado... E ameaçador. A monstruosidade de sua atuação faz de Chigurh um personagem que sempre está em evidência até mesmo fora de cena - e por melhor que fosse o roteiro, sem sua interpretação, todo esse cuidado seria jogado ralo abaixo.

Não há como negar a beleza da fotografia, a acertividade da trilha sonora, a criação perfeita desse universo caótico que irremediavelmente lembra os velhos tempos do Oeste norte-americano - épocas selvagens e violentas também, onde a violência era algo rotineiro, o que nos leva novamente ao assunto tratado no início desta crítica...

Cormac McCarthy queria falar da natureza cruel e assassina do ser humano, isso é um fato inegável. Mas concordar ou não com ele já é outra história, depende muito de quem estiver assistindo e do que cada um de nós acredita. Ao mesmo tempo que lembro da ideologia de Michael Moore, por outro lado penso em tempos remotos da nossa História, quando atirar prisioneiros num coliseu cheio de leões famintos era considerado uma diversão extremamente popular no Império Romano. Depois disso, penso na comédia Duplex, e no fato de que o casal interpretado por Ben Stiller e Drew Barrymore não faz mais do que traduzir o que qualquer um sente e quer fazer com um vizinho insuportável.

Então venho à minha pergunta: será que somos realmente "bonzinhos" ou a nossa suposta boa-conduta não é nada mais do que o medo que temos de sofrer as consequências de nossos atos? Isso não faz com que a única diferença entre nós e esses assassinos em massa seja a nossa... "Fraqueza"?


O EXTERMINADOR DO FUTURO 2 - O JULGAMENTO FINAL (1991)

Em 1991, James Cameron e Arnold Schwarzenegger mostraram ao mundo como se faz um filme de ação. A história contada no primeiro filme da série, agora é focada no então futuro líder da resistência humana contra as máquinas, John Connor (Edward Furlong). Um ciborgue é enviado do futuro com a missão de proteger John de outro exterminador, este destinado a matá-lo. Com a ajuda de sua mãe, Sarah Connor (Linda Hamilton), e do personagem vivido por Schwarzenegger, John vai atrás das possiveis causas da futura guerra entre humanos e robôs com a intenção de evitar que isto ocorra.

O filme se desenrola sobre uma narrativa que já te "prende na cadeira" logo no começo. Os diálogos são quase todos, daqueles que, você ouve pessoas repetindo pro resto da vida, curtos, simples, cativantes e marcantes. Mas é claro, que além de todas as qualidades, o que mais o caracteriza são as cenas de ação. Sequências, quase que ininterruptas, enchem os olhos de qualquer um e, proporcionam um nível de entretenimento difícil de ser alcançado nos filmes até hoje.


Me desculpem os outros zilhões de longas-metragens, mas o Exterminador 2 é o melhor filme já feito.

[O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final (Terminator 2), filme de ação/ficção científica de 1991, do diretor James Cameron, o mesmo responsável pela direção do primeiro filme da série, O Exterminador do Futuro (1984). Vencedor de 4 Oscars, foi o primeiro filme a ultrapassar o custo de 100 milhões de dólares.]

Rango!


Quem poderia fazer uma mistura tão perfeita e divertida de Western, Animação e sotaque mexicano (rs)?! Eu tiro meu chapéu para Gore Verbinski, o versátil e subestimado cineasta responsável por "Rango", um filme que tem como temática principal a busca de seu protagonista pela própria identidade, num roteiro que absorve e escancara assumidamente todos os clichês da "jornada do herói", de filmes de animação e de westerns, mas sem deixar de ter sua originalidade, além de não se intimidar a executar alguns personagens.

O segredo em qualquer gênero de filme não é o que fazer, mas como fazer: "Rango" começa com uma referência direta ao processo de construção de um roteiro quando seu protagonista, "brincando" de fazer cinema, percebe que seu herói fictício precisa de um conflito - e no mesmo instante um acidente real no carro o leva para o dito conflito, o que chamaríamos de uma "ironia do destino". A partir daí, o jovem e despreparado camaleão doméstico passa a conhecer criaturas bizarras e a viver aventuras mais estranhas ainda, na companhia da lagarto Feijão (sim, é uma fêmea) e os estranhos habitantes de uma cidade que sofre com falta de água.

Nas palavras do crítico Pablo Villaça: "Com um preciosismo técnico que nada deixa a dever à infalível Pixar, Rango cria uma galeria de personagens fascinantes, transformando os roedores, répteis e anfíbios de sua narrativa em criaturas com rostos marcados e marcantes que conseguem evocar com perfeição os tipos físicos tão característicos do gênero, desde as prostitutas do saloon até os fazendeiros oprimidos, passando pelos pistoleiros ameaçadores, o índio sábio, a mocinha corajosa e o bizarro agente funerário."



Rango é uma perfeita homenagem e subversão ao gênero western através da animação, fazendo do personagem-título uma espécie de mistura entre Clint Eastwood e Buster Keaton, mas com sérias crises de identidade e uma busca tão cativante por saber quem é, que o tira do hall dos estereótipos unidimensionais. E se só por isso já valeria à pena assistir a esse filme, quem dirá pelas várias e várias referências cinéfilas que habitam toda a projeção?! É desde uma homenagem misturada a Valsa das Valquírias, Apocalipse Now, entre muitos outros filmes (dos quais não vou me atrever a citar pelo simples fato de que não assisti e/ou não notei) - mas ao contrário de filmes da Dreamworks, o roteiro se esforça a incluí-las de forma realmente orgânica.

Sempre acompanhado de uma trilha composta por quatro corujas mexicanas - que também narram "fielmente" tudo o que irá ocorrer - Rango é um filme indispensável nas prateleiras dos amantes do western e, não preciso nem dizer, dos apaixonados por animação de qualidade.


Por Lin Marx

The Rapture – 1991 – Michael Tolkin

SPOILER! SPOILER! SPOILER!

A fé por uma entidade superior ronda a raça humana desde os seus primórdios, surgindo antes mesmo de uma escrita, sendo adaptada pelos babilônicos, egípcios, gregos, persas, romanos, pelas sociedades medievais, e chegando até a nossa cultura social atual. Porém, chegamos a um momento em que várias entidades divinas foram criadas, junto ao surgimento de várias religiões e seitas, que chegamos a perguntar se essa fé é real ou apenas um instrumento para esconder a verdadeira identidade de um individuo. E utilizando desta questão fundamental que Michael Tolkin concebeu seu estranho O Juízo Final, levantado até onde a fé cega pode levar um individuo desmotivado.

Tudo começa com Sharon, interpretada por Mimi Rogers, que durante o dia trabalha como agente de comunicações (nome bonito para a atendente de telemarketing) e a noite sai com um amigo atrás de casais que desejam experiências extra-conjugais. Porém ela sempre sente a pressão de uma vida errada e a falta de algo para completá-la, até conhecer Randy numa dessas noites e começar a se dedicar a uma seita que diz que o mundo irá acabar em seis anos. Vendo uma razão para viver dentro desta seita ela arrasta Randy e vivem seis anos de felicidade, criando uma família perfeita que nem mesmo a morte dele abala a estrutura. A perfeição familiar conquistada por Sharon é posta em prova quando “Deus” envia um sinal dizendo que ela e sua filha devem ir ao deserto esperar a “mão celestial”. A partir disso, Sharon e sua filha esperam por meses a “mão de Deus”, porém após matar a sua filha por essa fé passa a negar seu amor por Deus.

Neste ponto, Tolkin deixava claro que a religião torna as pessoas alienadas, porém acaba traindo a si mesmo ao mostrar o fim do mundo da forma como a seita previa, numa seqüência extremamente elaborada. No fim, temos Sharon sozinha no limbo, recusando a Deus de todas as formas possíveis. O filme, que tinha tudo para ser um arrasa quarteirão, derrapa nos seus últimos dez minutos, quando Sharon, não se sabe o por quê, não deseja ficar com sua família no Paraíso.

Mas a maior dúvida persiste: Até que ponto a fé faz bem para as pessoas? Tolkin se propôs a responder isso e falhou terrivelmente!

Robson Martins.

El Labirinto del Fauno – Dir. Guilhermo del Toro – 2006 – [[[[[[SPOILER]]]]]]

Como pode a delicadeza, sutileza estarem diretamente ligadas na mesma proporção com atos e pensamentos hediondos em mundos paralelos tão distintos? Será este o tal equilíbrio tão procurado por todos? Meio que passa por uma frase cantada em uma música da banda finlandesa Nightwish “Wish I Had An Angel” que diz mais ou menos assim: “... as obras mais belas vem dos pensamentos mais sombrios...”.

Direção de fotografia belíssima de Guilhermo Navarro, direção de arte mais perfeita e bela ainda, além da trilha estupenda de Javier Navarrete que caminha em total plenitude com a história, faz mergulhar nos dois mundos altamente complexos do roteiro. O Mundo particular de Ofélia, menina de 10 anos que foi morar em Navarro (Espanha) com sua mãe, batendo de frente com o mundo do Capitão Vidal, padrasto facista completo “puxa-saco” da ditadura de Franco. A narrativa se desenrola em 1944 após cinco anos do término da Guerra Civil Espanhola, mas com grupos ainda resistentes, os tais “rebeldes” comunistas que seguem na luta contra o ditador Franco, sendo função do Capitão Vidal, combatê-los. O horror da ditadura e seus “pau-mandados” é trabalhado de forma mínima, mas muito intensa intercalado ao mundo fantástico de Ofélia, que descobre um labirinto e conhece Pan que lhe “impõe” 3 desafios que devem ser vencidos antes da lua cheia. Pois acredita firmemente, que Ofélia é a princesa desaparecida do mundo das fadas e que está prestes a voltar. As batalhas íntimas da menina de 10 anos são de uma delicadeza mórbida, morbidez que resulta de maus-tratos recebidos do padrasto, falta de melhor orientação por parte de sua mãe ignorante que está grávida e doente, somado aos desafios estabelecidos por Pan. Já a delicadeza resulta do ponto de vista dela como criança, de que forma interpreta o mundo, “expressa” sua sabedoria nata ao jeitinho infantil.

Analisando por um eixo mais extenso, associo Ofélia um pouco ao Peter Pan, criança que deseja ser eternamente criança, quando se depara com os primeiros obstáculos, sofrimentos, decepções e imediatamente tem gana de voltar atrás e esquecer que algum dia passou por isto, nem que para isso tenha que enfrentá-los para se livrar, o que é bem contraditório.

Com a morte de sua mãe, devido ao nascimento de seu irmão, a menina encontra-se completamente só, mas como diz o próprio filme, “a inocência tem um poder que o mal nem imagina”, ela faz amizade com Mercedes, uma “rebelde” infiltrada disfarçada de empregada na casa que a protege de seu padrasto.

O roteiro é cheio de detalhes referente a personalidade dos personagens, a obsessão pelo controle é visível no habito doentio do Capitão Vidal em ficar a todo instante olhando o relógio de bolso e tomar nota escrita, de tudo que acontece, revelando um alto grau de vaidade dentre inúmeras manifestações da mesma.

Caramba! Posso ficar aqui horas falando a respeito desta maravilhosa história e todas suas sutilezas mascaradas, e críticas escrachadas, principalmente quase ao fim do filme, na hora do sacrifício de Ofélia para salvar seu irmão, será que ela morreu? Ela cresceu? Qual foi a “metamorfose”? Guilhermo Del Toro conseguiu dar um dinamismo único ao filme, uma paradoxal “simbiose” roteiristica. Olhos desatentos discordarão totalmente, dirão que de dinamismo não tem nada, pois é um filme parado, e cansativo, por isto afirmo, olhos desatentos.

Quem gosta de seguir pistas, desvendar mistérios no quesito “universo paralelo humano” a caráter de “fantasia”, O Labirinto do Fauno está entre uma das melhores escolhas!

Rayat Lyrians

W.R.: Misterije Organizma – 1975 – Dusan Makavejev


O mundo dos anos 70 iniciou dividido entre dois eixos: o mundo dito capitalista democrático, dominado pela influência norte-americana, e o mundo socialista/comunista, liderado pelos soviéticos, num evento histórico já consagrado como a Guerra Fria. Dentro deste cenário de conflito entre duas políticas extremamente distintas, cada nação defendia o que acreditava ser o correto para o mundo. Aproveitando este cenário, eis que surge o iugoslavo Dusan Makavejev mostrando seu ponto de vista de uma forma extremamente peculiar: com um documentário encenado enganador (ou também conhecido por mockumentary) sobre o “principio número 1” do comunismo: a Revolução sexual.

Esta é a essência de W. R.- Mistérios do Organismo, que a partir da premissa de explorar o ideal da Revolução sexual foca na figura de Wilhelm Reich (o W.R. do título), psiquiatra famoso por criar teorias sobre liberação da energia sexual (a Orgonomia) durante o conturbado período da Segunda Guerra Mundial, relacionando a sexualidade diretamente com a espiritualidade, conflitando com os tabus do mundo capitalista, porém sendo adotado pelo pensamento comunista. Em paralelo com entrevistas que elevam a importância da pessoa que Reich foi para a sexualidade humana (dividindo a cena com Freud, seu pai acadêmico), são intercaladas cenas de exercícios “padrões” para a energização espiritual através do sexo, em paralelo com a história de Milena, uma jovem de coração puramente comunista que busca divulgar os ideais reichianos para todos seus “camaradas”, ao mesmo tempo que se apaixona por um patinador encantado pela ideologia libertária, porém mentalmente instável.

O grande problema está na compreensão de W.R.: é um filme de protesto ou simplesmente descreve a história? É um documentário ou uma comédia de valores? É fiel a realidade? A única certeza que tenho é que se trata de um filme estranho sobre uma filosofia que não deve ser ignorada mas não deve ser praticada ao pé da letra (como exposto num filme de 2004 chamado The Raspberry Reich, intragável para qualquer cinéfilo normal). W.R. é o tipo de filme que é necessário ver mais de uma vez para se compreender seu real sentido e a sua mensagem, se é que há alguma no meio da confusão proposta por Makavejev.

Robson Martins.

Fahrenheit 451 - 1966 - François Truffaut (INDICO PARA O MOFO)

Fahrenheit 451 é com certeza um dos filmes que mais gosto e não apenas pelo roteiro que é genial, mas também conta com trilha e fotografia de dar inveja. Imagine se hoje os bombeiros não fossem mais responsáveis por apagar incêndios e sim incendiar livros. Está aí o maior absurdo que no fim das contas não parece tão absurdo.

Pois é, livros são proibidos. O argumento é que eles tornam as pessoas infelizes e assim é banido da sociedade. Acontece que sempre haverá resistência, essa composta por amantes de livros. Essas pessoas escondem qualquer tipo de livro, nos mais distintos esconderijos, para os quais, os bombeiros são treinados para encontrar e queimar.

Nosso protagonista é Montag. Um bombeiro que está prestes a ganhar uma promoção no quartel. Ele é casado com uma moça alienada pela TV e pela vida margarina. No caminho do trabalho, Montag conhece uma professora que desperta nele a curiosidade de ler um livro.

Fahrenheit 451 é além de título do filme, a temperatura que o papel queima. E em um desses incêndios ele guarda um dos livros. Após ler vários livros, seu casamento desmorona e ele começa a olhar para o mundo de outra forma. Assim é denunciado ao quartel pela mulher. Foge então para uma aldeia escondida de pessoas que são livros, elas decoram seu livro predileto e guardam por toda sua vida, repassando seu conteúdo.

Aaltra - 2004 - Benoît Delépine e Gustave Kevern

A comédia não precisa de falas. Um grande exemplo e ídolo é Jacques Tati. Mas venho falar do filme Aaltra de Gustave de Kervern e Benoît Delépine. Com falas mínimas e em preto e branco, esse road-movie sobre cadeira de rodas me tirou as mais inesperadas gargalhadas.

Tudo resulta do ódio entre dois vizinhos, Ben e Gus. Eles moram em uma área rural, mas Ben trabalha na cidade e Gus é agricultor. Um dia Ben se atrasa para o trabalho por culpa do vizinho, assim desiste de ir e volta para casa. No lar encontra sua mulher que está grávida, transando com outro homem. Bem sai enfurecido atrás de Gus, pois acredita que a culpa é dele. No confronto acontece um incidente e os dois perdem os movimentos das pernas.

Aqui começa o desenvolvimento do road-movie Aaltra, após saírem do hospital partem para uma viajem hilária até a empresa Aaltra, marca do trator que causou o acidente. Gus motivado pela indenização e Ben por sua paixão por motocross.

Mais um na querida lista de humor negro. Eles se aproveitam das regalias e caridades para com deficientes, desde a roubar uma cadeira elétrica de velhinhos à alugar as vagas de estacionamento para deficientes. Assim o ódio entre eles é deixado de lado para se unirem e aproveitarem de tudo e de todos.

Aaltra é hilário, seu desfecho mais ainda. Pois o filme mostra que deficientes também são pessoas capaz de tudo e não coitados.


Trailer

Aconteceu perto da sua casa (C'est arrivé prè de chez vous) - 1992 - Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde

Aconteceu perto da sua casa, finalmente com um título no Brasil. Este falso-documentário transborda humor negro. Realizado em 1992 por Rémy Belvaux, André Bonzel e Benoît Poelvoorde, não apenas na direção, mas em várias funções centrais. Poelvoorde também atua, encarnando Ben, nosso protagonista.

Tudo gira em torno de Ben, que é um serial killer. A câmera registra seu dia a dia, assassinatos, sua família e amigos, como afundar corpos e as opiniões de Ben sobre derivados temas um deles: a estética da cidade.

Nosso protagonista mata apenas pessoas miseráveis e velhas. Chega a dizer que os velhos são os mais mesquinhos e assim sempre têm dinheiro. Ele até frisa no filme que, "se você mata uma baleia, será perseguido pelos ecólogos, pelo Greenpeace...mas se você fatura um cardume de sardinhas, garanto, eles te ajudam a carregá-las."

Com todo cinismo e ego demais, as coisas acabam saindo fora do controle. A equipe de filmagem tem parte dos integrantes morta. Ben acaba matando sem querer um mafioso e assim seus amigos e familiares começam a ser perseguidos enquanto ele está na cadeia.

Aconteceu perto da sua casa é fascinante, para os adeptos do humor negro e cenas fortes não há melhor recomendação. Insano.



El Método – Dir. Marcelo Piñeyro – 2005


El Método (2005) uma produção entre Argentina, Espanha e Itália, dirigida pelo argentino Marcelo Piñeyro tendo também seu envolvimento no roteiro com Mateo Gil, adaptado da peça teatral de quatro atos do catalão Jordi Galcerán “El Método Ghrönholm” (2003), que por sua vez deve ter se inspirado em Bertolt Brecht quando este disse: “... sábios alemães tentaram-se a abdicar de seu saber em mãos de chefes nazistas...” casa perfeitamente com este filme que narra a trajetória de sete candidatos que disputam uma vaga de emprego. Transpondo a frase de Brecht, podemos dizer que é visível no roteiro, pessoas que omitem parte de seu potencial por medo do “insucesso” em mãos de chefes que talvez saibam menos que os próprios interessados na vaga, ao mesmo que sofrem certa “dislexia” quanto a ética em relação aos concorrentes. Sim, humilhações em larga escala!

Traduzido para o português como “O Que Você Faria?” vencedor do prêmio Goya de melhor roteiro adaptado e melhor ator coadjuvante de 2006, El Método retrata a crueldade sutil e escancarada dos processos de seleção com dinâmicas de grupos um tanto quanto bizarras, que muitas empresas aplicam, neste caso, com o nome fictício de “grönholm”. O desespero da empresa por ter o melhor profissional faz com que esta, direcione as respostas dos candidatos e aquele que melhor souber interpretá-la será contratado. Os candidatos são trancafiados em uma sala, onde terão que passar por inúmeras provas, e uma delas é descobrir um infiltrado da empresa. Ou seja, um pé em falso, e seu emprego do sonhos, já era. Além de estarem sendo “big brotheados” o tempo todo, é quase que 1984 empresarial; quem leu esta obra de George Orwell, entenderá o que digo. A história toda praticamente se passa dentro desta sala na capital espanhola, Madrid.

Diálogos ricos em conflitos, indagações, que geram situações bem delicadas, e inúmeras perguntas principalmente sobre ética. Até que ponto uma pessoa é capaz de ir para ser contratada? Até que ponto uma empresa pode tocar um terror psicológico em seus candidatos? Que tipo de perfeição exigida é esta, a ponto de tornar um ser humano robô? Sim, demonstra uma frieza robótica, pois no mesmo dia as ruas de Madrid estão tomadas por manifestos violentos devido a uma reunião do G8, que não impede da seleção acontecer.

Bom, quanto a montagem, atuação do elenco, não há do que reclamar. Num roteiro em que quase não há movimentação de personagens, e mudanças radicais de locação, tem que se ter um excelente diretor de cena para conseguir prender a atenção do público com os nuances, expressões milimétricas por assim dizer, do atores. E isto Marcelo Piñeyro conseguiu perfeitamente bem. Já a trilha sonora, posso dizer que não me chamou a atenção tanto assim, até por que tem muito pouco destaque, mas nota-se Tom Jobim de fundo em uma das cenas inciais.

Simplesmente finalizo que, é estupendo este filme!

Rayat Lyrians

19/04/2011

As Brumas de Avalon (The Mists of Avalon) Dir.Uli Edel, Roteiro:Gavin Scott - 2001

Um mundo atual? Verdadeiro? Irreal? Crenças que evoluem e preservam-se por si só, através de milênios, séculos, mesmo que, com uma minoria de adeptos divididos em inúmeras vertentes, tendo como “maior” minoria os que praticam de forma impoluta.

As Brumas de Avalon, bestseller de 1979, retrata em quatro livros a lendária história do Rei Arthur, de forma distinta, revela um homem frágil e dependente indiretamente direta da rica e misteriosa magia da ilha sagrada de Avalon com seus magos sacerdotes e sacerdotisas, druidas e druidesas, para o vulgo, bruxos e bruxas, na verdade a história é mais de Avalon que qualquer outro personagem. Esta obra-prima, teve sua adaptação para o cinema lançada em 2001. Sim, batemos naquela tecla que, os livros são muito melhores que o filme.

Nota-se que Gavin Scott, que roteirizou a obra, tentou aproveitar ao máximo o que haveria de melhor no livro com intuito de um filme comercial sobre magia e com máscara de quase histórico. É plenamente entendível a dificuldade de se fazer uma adaptação de um tema complexo que trata a obra, com extermínio de culturas, divergências religiosas acentuadíssimas, a inerente ambição do homem em querer ter o poder para manipular a todos principalmente por meio de doutrinas espirituais, como já ressaltada. Pena isto não ser tão destacado no filme. Embora se tenha 180 minutos de filme, como disse, a intenção é comercial, então se apela para os atos de sexo e guerra (principalmente).

A Fotografia do filme fica a desejar, alguns efeitos especiais também, tem-se inúmeros erros de continuidade. Resumindo é um filme tosco. Mas mesmo assim consegue encantar, para os amantes da temática, sendo o paganismo celta retratado. O Roteiro poderia ter sido bem melhor desenvolvido, destacando a importância do Merlin da Bretanha, seus ensinamentos e conflitos com Viviane a Grã-Sacerdotisa de Avalon. Avalon é o mistério, Avalon é a grande pergunta do por que e como o povo que habita a ilha sagrada é tão pacífico e possui tanta sabedoria, Avalon é a protagonista da história, mas certeza que conveniências prevaleceram, talvez para não chocar e entrar para o “index” da igreja católica, mesmo com a extinção do mesmo.

As Brumas de Avalon se salva pela ótima direção de atores, o diretor Uli Edel caprichou na escolha, e realmente não teria pessoa melhor que Angelica Huston para interpretar Viviane a Senhora do Lago, Juliane Marguiles como Morgana, possuidora de uma beleza exótica e Hans Matheson como Mordred filho de Morgana e Morgause irmã de Viviane interpretada por Joan Allen, quarteto de atores impecáveis. A trilha merece destaque para o compositor haitiano Lee Holdridge e a canadense Loreena Mckennitt que deram uma riqueza a algumas cenas quase que divinas! Embora tosco, é um ótimo entretenimento e que contém relevantes surpresas completamente modificadas do livro.


Direto de Avalon (rs), Rayat Lyrians