02/04/2011

Jeanne Dielman, 23 Quai du Commerce, 1080 Bruxelles - 1975 - Chantal Akerman


Na minha concepção de filme-arte, o objetivo deste é passar uma mensagem única, seja pessoal ou generalizada, apoiada nos mais variados sentimentos, como raiva, amor, angústia e desespero (pensei em Lars Von Trier para fornecer estas características), usando o tempo que for necessário para concluir a sua idéia. O grande problema gira em torno de certos autores que, aproveitando a liberdade poética que o filme-arte lhes fornecem, criam obras extensas e, por muitas vezes, complexas: caso dos excelentes Satántango, de Bèla Tarr, e do documentário Shoah, de Claude Lazmann, que passam da faixa de sete horas de duração.

Reduzindo um pouco a metragem citada acima, temos o maior tour de force francês ao qual já fui apresentado: o minimalista Jeanne Dielman, exercício de paciência e calmaria da belga Chantal Akerman. Durante quase três horas e meia acompanhamos o dia-a-dia de Jeanne Dielman, dona de casa que passa praticamente seu dia arrumando a casa, preparando as refeições de seu filho único, tomando longos banhos e, às vezes, saindo para fazer compras. Atrás desta vida monótona, existe uma mulher que para sustentar seu “luxo” e seu filho se prostitui no seu próprio apartamento com a mais variada espécie de velhos solteirões de Bruxelas. E o filme é praticamente uma repetição de tudo mencionado acima durante toda sua metragem.

O que torna Jeanne Dielman especial é o tratamento que Akerman dá a sua protagonista, que dentro dos planos longos de atividade caseira mostra uma mulher que esconde com todas suas forças sua fraqueza, sendo seu conformismo um casulo para proteger a ela própria e aos outros de suas frustrações internas, liberada apenas ao fim do filme.E ninguém seria mais perfeito para interpretar Jeanne do que a diva francesa (pelo menos ao meu ver) Delphine Seyrig, que se entrega totalmente a uma personagem sem nenhuma perspectiva para sua vida.

Por mais cansativo que este filme seja (e infelizmente devo concordar com isso), é impossível descartá-lo de sua importância para a noção de um cinema no qual os míseros detalhes constituem toda a sua trama.

Robson Martins.

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